Furia Em Duas Rodas -
Bruno colocou o capacete e, pela primeira vez, sentiu que a viseira não protegia seu rosto, mas sim o prendeu em uma máscara de silêncio. Deu partida. O motor rugiu, e a fúria, até então contida, subiu do tanque de combustível pelas mãos até a nuca.
Ele ficou ali por dez minutos. Depois, levantou, girou a chave e deu partida. Mas agora, na volta para casa, a moto parecia diferente. Não uma fera. Apenas um veículo. Duas rodas sem fúria.
O motorista do Fiesta – um senhor de cabelos grisalhos, óculos de leitura pendurado no pescoço – não o viu. Estava ao telefone, ouvindo a filha dizer que havia passado no vestibular. Ele sorria. Diminuiu mais um pouco, para saborear a notícia. furia em duas rodas
Ela estranhou o aperto do abraço, mas retribuiu.
Bruno viu o pneu do Fiesta a trinta centímetros de sua canela. Viu o olho arregalado do motorista do ônibus atrás do para-brisa. Viu a própria mão no guidão – e notou que ela tremia. Não de medo. De vergonha. Bruno colocou o capacete e, pela primeira vez,
Ele acelerou.
Foi então que viu o Fiesta prata.
Um táxi fechou a passagem na altura do Carrefour. Sem pensar, Bruno enfiou a moto no corredor entre o táxi e uma carreta. Menos de dois centímetros de cada lado. A fúria sussurrou: “Você não é ninguém. Prova que é alguém.” Ele provou.